Tuesday, November 10, 2009

Manifesto Slow-Talking

Conversando com amigos numa festa, quis anunciar minha saída do ambiente e minha defesa da suspensão da outra atividade em curso. Não lembro exatamente qual caminho minhas palavras percorreram para chegar aonde queria. Sei que foi longo o suficiente para que uma amiga exclamasse:

- Bernardo, sintetiza! Tudo isso pra dizer, ‘galera, encharquei’?

Ensaiei uma defesa, mas fui interrompido pelos apoios ao prosseguimento da outra atividade. A idéia ficou acesa na mente, mas sem poder vir ao mundo até agora, que decidi eleger este blog como maternidade. Ciente dos possíveis danos da cesárea ao que vem à luz, busco um parto normal, em sintonia com o que direi a seguir.

Os manuais da escrita pregam que um bom texto deve ser sintético, conciso, conseguir dizer o que se quer com o mínimo possível de palavras. Temos aí o princípio da edição de “cortar a gordura do texto” para aumentar seu impacto, como o fotógrafo que seleciona as 10 melhores fotos das 100 que tirou, evitando a diluição da qualidade do seu trabalho.

Um valor muito presente no nosso tempo, relacionado a essa objetividade da escrita, é a noção de que o melhor caminho entre dois pontos é sempre o mais rápido/curto. Se você pode ir de Recife a Porto de Galinhas em 1h por um caminho, porque diabos o faria em 2h por um caminho mais longo? Isso implicaria em mais gasto de dinheiro e tempo, dois eixos centrais de nossas vidas que muitas vezes se confundem, e sobre os quais tendemos a estruturar todos os outros aspectos.

Essa lógica se reflete mesmo em conversas entre amigos. As pessoas querem que quem fala vá direto ao ponto, como querem rápidos os deslocamentos, preparação de comidas, aprendizados, frutas maduras... Enfim, que todas as distâncias entre o desejar e sua realização sejam percorridas o mais rápido possível. Esperar virou um tormento.

Mas ninguém espera que o sexo ou a cerveja com os amigos dure o menor tempo possível.
Queremos que o que nos causa prazer demore, e todo o resto seja rápido. A questão é que essa ansiedade por rapidez faz com que muitas coisas que poderiam causar prazer não o façam. A viagem para Porto de Galinhas pode ser muito mais prazerosa pelo caminho mais longo. E uma conversa agradável pode ser composta de palavras percorrendo variados caminhos, sem pressa alguma de chegar direto ao ponto. A obrigação da velocidade restringe muito as possibilidades de prazer.

Minha mãe, por exemplo, é quase como a internet quando conta uma história: lá pela terceira frase abre um link para uma nova janela, onde detalha um bocado um aspecto da narrativa que a gente não sabe bem qual relação tem com o todo, inclusive porque o final ainda está a várias frases e alguns links de distância. Isso gera impaciência nos reféns da objetividade, dentre os quais eu muitas vezes me incluo. Quando, porém, eu relaxo e tento acompanhar seu hipertexto, sem pressa, deixando que ele se apresente naturalmente, nascendo de parto normal, muitas vezes me divirto com os caminhos que ele percorre, imprevisíveis e não-lineares como um bom improviso musical, como a vida.

Por tudo isso eu proponho, em sintonia com o movimento Slow-Food, o Slow-Talking: por conversas sem cesárea, porque devagar faz bem e é mais gostoso.

Thursday, October 01, 2009

Maloqueiros são os outros

Nós já tínhamos desistido de ir ao show de Milton Nascimento e Lô Borges no Coquetel Molotov. Na nossa condição momentânea de lisos, e minha namorada sem carteira de estudante, o preço do ingresso nos proibia a diversão com os mineiros. Estávamos sem saber o que fazer com nosso belo sábado, quando, de repente, a porta se abre e Joãozinha nos invade a sala, com uma proposta altamente maloqueira: ir ao show de graça, através de um caminho secreto nos subterrâneos do Centro de Convenções.

Maria João, ou Joãozinha, é uma portuguesa que está no Brasil há cerca de um ano, trocando o "ora pois" por "podes crer", toda "ligada nas paradas". Seus amigos de Maceió a informaram desse estrategema pouco europeu, pelo qual já tinham visto Chico Buarque e Caetano Veloso sem levar a mão ao bolso. Eu já tinha ouvido falar da malandragem, mas achava que pertencia às "lendas urbanas" de nossa querida cidade. Joãozinha, contudo, estava super empolgada:
- Vamos nessa, pô! Vai ser massa, e o máximo que pode acontecer é a gente não conseguir entrar.
- Mas se pegarem a gente, eu vou morrer de vergonha! - replicou minha namorada Lili, que carece de experiência na área da maloqueiragem.
- Que nada, pô! É só a gente dar meia volta... mas vai rolar, tu vais ver!

Contagiados pelo entusiasmo de Joãozinha, fomos ver o que acontecia no Centro de Convenções. O tal caminho começava por uma descida de escada, de onde um guarda não saia do lado. Bebemos, comemos, conversamos, e a marcação do guarda continuava implacável. O show de Milton e Lô Borges já ia começar, nós já tínhamos desistido da maloqueiragem, quando resolvemos dar uma última passada pelo tal caminho, só por desencargo de consciência. Olhamos para um lado, para o outro, e... plim! A rota estava livre, pedindo para ser desbravada por jovens audazes como nós.

- Vamo nessa galera, rápido, rápido!

Descemos as escadas naquela empolgação de pirralho fazendo traquinagem, levando conosco amigos que já tinham comprado o ingresso, mas nos acompanharam por conta do espírito aventureiro. Lá embaixo, vários caminhos, várias portas, algumas delas com seguranças dormindo do outro lado, outras com bloqueios... não encontrávamos o caminho correto, quando ouvímos passos... corremos para nos esconder, até percebermos que eram outras pessoas fazendo o mesmo que nós. Acompanhamos uns barbudos com mais know-how na função, e... bingo! Achamos a porta prometida, caímos no meio da platéia, instantes antes de começar o show.

Sentamos nas cadeiras com um sorriso de orelha à orelha, só essa aventura da entrada já tinha valido a saída. Começa o show, e o repertório mais recente de Lô Borges me soou altamente xaroposo. Mas certamente soava muito mais xarope para um pirralho de uns 15 anos na minha frente: ele "pescava" de três em três segundos, tombando a cabeça para trás, acertando o copo de Lili por duas vezes, quase parecendo ter um ataque de epilepsia: "pescadores" normais conseguem passar no mínimo uns 15 ou 20 segundos acordados antes do próximo mergulho de cabeça. Esse cidadão em construção não passava mais de cinco segundos, na real, sem figura de linguagem. Atribuir esse sono todo ao xarope sonoro é exagerar as propriedades soníferas do nosso Lô Borges. Certamente o pirraia deve ter trelado com outros tipos de xarope...

Milton demorou um pouco a entrar no palco, afinal ele era um convidado de Lô Borges, embora a maioria do público estivesse ali por conta do negão, como um cara atrás de mim não parava de chamá-lo. Ele enfim entrou, tocando uma música sozinho no piano... bastou ele abrir a boca para a mágica acontecer. Quando cantava junto com Lô Borges, ficava nítida a diferença entre os dois intérpretes. Lô Borges pode ser um ótimo compositor, mas como cantor e performer não empolga... No bis, Milton cantando sozinho no violão matou um tanto da sede da platéia, e no final o saldo foi bom, ainda mais com um custo desses...

Friday, September 18, 2009

Viagem pela Sudamérica - La Paz

De Santa Cruz para La Paz, são cerca de 15h de viagem e três mil e duzentos metros de altitude. À medida que ficávamos mais próximos do céu, meu estômago descia ao inferno, enquanto eu inspirava ao máximo para obter o mínimo de oxigênio, deixando minha pele esverdeada e minha namorada próxima do pânico. Cheguei a colocar pra fora o líquido maligno que me roubava o bem-estar. Até que uma alma caridosa, munida de uma garrafa térmica e muitas plantinhas mágicas, me ofereceu um chá de coca. Pouco tempo depois, já me sentia melhor, embora só viesse a me recuperar cem por cento depois de uma soroche pill (remédio contra o mal da atitude) e um dia de descanso e cuidados de Lili, regados a outros chazitos.

La Paz deixa em guerra a respiração dos nascidos e criados no nível do mar. É preciso ajuda para vencer a batalha, e as folhas de coca são aliadas de peso, ou melhor, de alívio, na medida em que facilitam a absorção de oxigênio. Os guardiões da sobriedade podem ficar descansados: mascar folhas ou tomar chá de coca, psiquicamente falando, tem efeito quase nulo, menor que o do café. Sua ação se concentra no corpo, onde combate a indisposição e a falta de ar causadas pela altitude. Encontramos várias camisas com a mensagem “La oja de coca no es droga” pelas lojas de La Paz, e várias tcholas (senhoras índias, de roupa e feições típicas) nas ruas vendendo os saquinhos com as folhas, disponíveis também em farmácias. Em Cuzco, no Peru, visitaríamos o Museu da Coca, confirmando a importância da planta para aqueles povos das alturas: vários deuses e xamãs representados com a bolinha na bochecha, as folhas enroladas que se deixa atrás do dente. Lá ficamos sabendo que existe um abismo de processos químicos separando as folhas e seus chás da cocaína, responsáveis pelo poder viciante da droga, que as folhas não compartilham.

Nosso couch em La Paz foi um agrônomo ciquentão chamado Miguel. Sua casa fica na parte alta e nobre da cidade, com uma vista fantástica, numa área cercada por montanhas semelhantes às rochas lunares, muito utilizada por pessoas em busca de experiências xamânicas. Quando Lili bateu os olhos no nosso anfitrião e sua casa cheia de plantas, intuiu que se tratava de um bruxo, o que provocou um sorriso de descrença em meus lábios. Algumas conversas depois, com uma certa confiança já conquistada, Miguel confirmava a infalível intuição de Lili, revelando que não estudava as plantas apenas pelo viés da ciência, mas também de maneira mística, seguindo as milenares tradições indígenas de seu povo. Essa identificação com os habitantes originais das Américas já lhe rendeu problemas com seus vizinhos ricos: Miguel pendurou na janela de sua casa o arco-íris quadriculado da bandeira da diversidade, que na Bolívia aponta muito mais para as várias tribos indígenas do que para as orientações da safadeza. Os vizinhos não gostaram e pediram a Miguel que a retirasse, coisa que ele não fez, mantendo visível a simpatia de seu lar a uma causa desprezada por seus colegas de bairro.


Os arredores do nosso couch, no Alto Alquisamanha.


A bandeira da diversidade, em meio as rochas lunares.


As rochas lunares do Valle de la Luna.

No Couch de Miguel, conhecemos aquele que viria a ser nosso guia em La Paz: Joey, um mochileiro paulista que saiu de São Paulo até a fronteira com a Bolívia de carona, e estava viajando com 10 dólares por dia. Ele tinha chegado em La Paz alguns dias antes de nós, e foi suficiente para que nos guiasse pelas ruas do centro, abarrotadas de gente, quase todos com feições indígenas: em La Paz era difícil ver traços espanhóis nos nativos, ao contrário de Assunção, onde a presença de rostos hispânicos é bem maior, e Santa Cruz, que fica num meio termo entre os dois.

Em alguns trechos, o centro de La Paz lembra Olinda, com muitas ladeiras e casas coloridas, naquele estilo colonial. Na Calle de Los Brujos, famosa por suas tendas e lojas onde se pode comprar de tudo, nosso guia nos mostrou sua eficiente tática de negociar com os vendedores: “Vinte bolivianos? No, es muy caro! Nosotros somos brasileños, tercero-mundistas como ustédes, tienes que cobrar mas caro de los gringos, no de nosotros!”. Joey andava pelas ruas sendo cumprimentado por diversas pessoas, revelando sua facilidade em fazer amigos e conseguir informações privilegiadas sobre os jeitos mais baratos de se fazer tudo. Há poucos dias ele me contou que já está preparando a próxima viagem, cujo desafio será não levar dinheiro algum, sobrevivendo com o que conseguir levantar com tatuagem de rena, venda de artesanatos e performances artísticas.


Nosso guia Joey, ensinando um morador das ruas a jogar porrinha.

Joey seguiria viagem conosco para Copacabana, a cidade na parte boliviana do Lago Titicaca, ponto de partida para a Isla Del Sol, um dos lugares mais bonitos da viagem, onde a lei de Murphy prevaleceu e a bateria da câmera arriou logo no começo do passeio. Mas vamos com calma, que não é aconselhável correr na altitude.

Saturday, August 22, 2009

Viagem pela Sudamérica - Santa Cruz de la Sierra

Depois de deliciosos seis dias em Assunção, seguimos para Santa Cruz de La Sierra, cidade no centro da Bolívia, ainda na parte baixa, longe dos problemas com a altitude. Viajar por 23h seguidas não é tão difícil quando se tem boas músicas, livros, revistas e um bom ombro pra cochilar... ônibus para mim são como berços, o balanço da estrada me apaga com uma facilidade impressionante. Com Lili é diferente: ela vai a viagem toda com os olhos arregalados a devorar as paisagens; e se eu tenho nove graus de miopia e um cabeção imaginativo que me faz um pouco desatento, ela tem olhos de águia, que já voltam com o cuzcuz enquanto os meus ainda estão procurando o milho.

Algumas pessoas nos fóruns da web diziam que não valia a pena dormir nenhum dia em Santa Cruz, devido a uma suposta ausência de atrativos na cidade. Lisa, uma sueca muito gente boa que conhecemos pelo Couchsurfing, concordava que não havia nada ali. Mas nós gostamos tanto! A praça 24 de Septiembre disputa com a de Cuzco o título de mais bonita da viagem, o centro é charmoso, cheio de cafés, bares e restaurantes de alto nível e baixo preço – a Bolívia, em geral, é bem barata para nós brasileiros. E os sorvetes, que maravilha! Foi em Santa Cruz minha primeira e inesquecível experiência Bits & Cream, o melhor sorvete boliviano, com uns pedaços de morango e biscoito e quantidades cavalares, de deixar satisfeitos os apetites mais ensandecidos. Na quarta-feira eles fazem uma promoção “pague 1 leve 2”, e é surreal ver as filas enormes, em busca da sobremesa encantada.



Numa fria manhã de sol, caminhando pelas ruas pouco movimentadas de um domingo, vimos uma livraria bem simples, com a fachada toda desgastada. Entramos e ficamos a observar os poucos, porém muito interessantes, títulos que havia: boa parte deles tinha uma orientação comunista, tendo sido escritos em Cuba e impressos na antiga União Soviética, bem antigos, com grampos já enferrujados, mas ainda em bom estado. O senhor idoso que nos atendeu, já um pouco surdo, mas bem falante e com ótima memória, nos contava estórias dos livros que apontávamos... E ao saber que éramos brasileiros, começou a falar da esquerda de nosso país na época da ditadura, de Luiz Carlos Prestes... O filho do senhor, que estava trabalhando com marcenaria nos fundos, se juntou à conversa, passando para a política boliviana e seu presidente Evo Morales, que a imprensa brasileira com freqüência coloca ao lado de Hugo Chavez como exemplo de “esquerda lunática”. O filho marceneiro era bem crítico ao presidente boliviano, por conta de sua ênfase em políticas raciais que relegam o grande número de mestiços a um segundo plano. Já Lisa, a sueca do Couchsurfing que trabalha numa ONG de desenvolvimento dos povos rurais, considera Evo bem mais equilibrado que Chavez, afirmando que ele vem fazendo muito pelas camadas mais pobres. De fato, quase todos os taxistas e ambulantes com quem conversamos idolatram o líder da nação.

Saindo da livraria, de volta às ruas desertas, cruzamos com dois homens, um dos quais tirou sei lá de onde um revólver enorme, no momento em que passávamos por eles. Olhamos, gelamos e continuamos andando com o coração na boca, mas fingindo que nada tinha acontecido. Felizmente eles também seguiram o rumo deles, sem se dirigir a nós. A violência parece ser o principal problema de Santa Cruz, a cidade cresceu demais nos últimos anos, cerca de 1,7 milhões de habitantes, bem mais que os 900 mil de La Paz. Mas esse susto foi o mais perto que tais perigos passaram por nós, durante toda a viagem.



Santa Cruz nos encantou sim, a despeito do que ouvimos em contrário. Epicuro já dizia que o que sentimos não depende da realidade externa, mas de como a percebemos e reagimos a ela. Isso poderia indicar que o posto de observação proporcionado por viajar com Lili fazia com que qualquer cidade mixuruca parecesse uma maravilha. Mais tarde passaríamos por uma cidade que nos pareceu bem mixuruca, o que jogaria a teoria por terra, não fosse o fato de que nos divertimos a valer na tal cidade, o que me leva a concluir duas coisas:
1) Epicuro tinha razão.
2) As pessoas em volta ajudam bastante a modificar a percepção da realidade. Me refiro aqui, além de Lili, ao casal de ingleses que nos acompanhou na tal cidade mixuruca, e com o qual tivemos uma conexão assombrosa, maior que o oceano que separa Brasil e Inglaterra. Mas deixemos para falar deles mais tarde.

Wednesday, August 12, 2009

Viagem pela Sudamerica - Assunção

Colocar uma viagem em palavras não é tarefa das mais fáceis. São tantos episódios, lugares e pessoas que custa achar o fio condutor para organizar as lembranças de um modo agradável de ser lido. Mas a vida é feita de dificuldades, como diriam as frases feitas da revista Caras, ou, como dizem os budistas, a vida é sofrimento, embora viajar com a namorada por um mês ofereça fortes provas em contrário.

Nossa viagem começou tentando driblar a gripe porcina, deixando de ir a Buenos Aires para rodar pelo Paraguay, Bolívia e Peru. Durante o vôo, meu nariz enchia meus bolsos de lenços cheios de coriza, e os passageiros ao redor com máscaras me olhavam de cara feia cada vez que eu espirrava. Mas eu tava tranquilo, sabia que tudo não passava de um corpo acostumado ao calor reagindo ao frio.

Em Assunção nos hospedamos, através do Couchsurfing, na casa de dois irmãos, Rubén e Telo. Um é a antítese do outro: Rubén é calmo, sensato, enquanto Telo é elétrico e doidão. Mas os dois são muy buena onda, a maneira deles de dizer que alguém ou algo traz boas vibrações.

A casa onde eles vivem é enorme, grande demais para somente os dois. Logo no primeiro dia, Lili notou algo estranho, como se estivesse faltando algo: o carro bem antigo empoeirado na garagem, os móveis indicando bom gosto feminino, mas gastos, sem cuidado. Na terceira noite, curtindo o clima e os cheiros de Assunção no telhado da casa, Telo esclarece o mistério: em três anos, eles haviam perdido o pai, o avô, a mãe e o irmão, este num acidente de carro a 200m de casa. Faziam dois anos desde a última morte, e eles pareciam estar vivendo numa boa, mas as ausências estavam ali, em fotos espalhadas pelos cômodos, e na maneira como eles mantinham a casa do mesmo jeito que os pais haviam deixado.

O povo de Assunção é dos mais simpáticos que conhecemos. Riem com facilidade, mas de um jeito meio tímido, quase olhando para baixo. Em geral são desarmados, de olhar transparente, sempre muito solícitos em dar qualquer informação, mesmo que a dúvida seja pouco usual, como o porquê de tantas pixações com a frase: "descentralizacion igual a mas miséria", escrita pelos muros da cidade. Isso intrigou a mim e a Lili, no nosso entender descentralizacion é algo positivo, então Lili perguntou a uma moça atrás de nós o porquê do protesto. Ela explicou que na teoria um governo descentralizado seria bom, mas na prática, com a corrupção dominante, as várias unidades administrativas descentralizadas favoreceriam a roubalheira, e foi o bastante para várias pessoas do ônibus entrarem na conversa, e nós tivemos a sensação de que os Assunçenhos são bem informados a respeito de lo que se passa.

Voltaríamos a Assunção no final da viagem, levando um presente para Oscar, o menino que nos vendeu deliciosos lomitos (hamburgueres cheios de verdura, muy ricos) e nos encantou com seu olho-que-ri-para-baixo. Também retornaríamos a padaria onde comiamos, todos os dias, croissant com suco de laranja e doces (dentre eles uma combinação surpreendemente boa: arroz com leite canela), onde o tio, contente em nos ver voltar, nos ofereceu de graça um prato paraguayo delicioso: bori de pollo, uma sopa com bolinhos de milho e um peito de frango. Assunção estava tão bom que queríamos ficar mais tempo.



Mas Bolívia e Peru nos aguardavam, e depois de 5 dias deliciosos seguimos para Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, numa viagem de 23h, ao lado do banheiro onde havia escrito "solo para orinar", mas cujo aroma indicava obras mais sólidas. Mas isso fica para um outro post.

Wednesday, May 27, 2009

Divisas para quem precisa

O jovem rapper dispara sua arte. As legendas tentam dar conta das velozes rimas em turco, há uma clara sensação de perda de conteúdo para o espectador. Mas o que causa impacto não precisa de tradução: a cadência e o peso da levada do rapaz, com suas marteladas verbais precisas e vigorosas, sugerem a quantidade de energia investida no ato de cantar aquele rap, que termina com o suor escorrendo pelo pescoço do artista, e uma descarga de adrenalina percorrendo o corpo de quem presenciou o ato, mesmo distante no espaço e no tempo, através da mágica do cinema.

Atravessando a Ponte – O Som de Istambul, é um filme repleto de momentos musicais marcantes. Dirigido por Fatih Akin, um alemão de ascendência turca, o filme mostra o músico alemão Alexander Hacke em busca das diversas sonoridades produzidas na capital da Turquia. Desde as mais tradicionais, mais próximas do que tendemos a classificar como “música árabe”, até gêneros que nos soam mais familiares, como o rock, o rap e a música eletrônica. E, sobretudo, o filme mostra o diálogo entre esses dois pólos, e que novas formas de expressão surgem a partir daí.

Istambul, a antiga Constantinopla dos livros de História, é uma cidade dividida entre Europa e Ásia pelo estreito de Bósforo, divisa geográfica entre os dois continentes. Na abertura do filme, a banda local de rock psicodélico Baba Zula toca numa embarcação a navegar pelo Bósforo. Hacke participa do ato, cujo som incorpora temas turcos às bases de rock. É uma cena síntese da idéia que permeia todo o filme: o encontro do ocidente com o oriente a mostrar que essa linha divisória pode ser mais tênue do que imaginamos.

O filme mostra, através da música, como a linha-divisa-ocidente-oriente ganha ou perde força, nos dois lados: há as bandas de rock que fazem um som muito próximo do americano, há a cantora duma espécie de “fado turco” que se preocupa com a pureza do seu ritmo, que já foi perseguido por razões políticas. E há diversos artistas fazendo um som que bebe nas duas fontes, como o grupo de música eletrônica com flautas ciganas, ou o rapper cujo ritmo é totalmente diferente daquele com o qual estamos acostumados. Fica claro o quanto expressões culturais podem ser remodeladas, a partir da incorporação de novas referências, gerando obras diferenciadas de suas formas originais. Impossível não lembrar de Recife, onde ocorreu, com o Manguebit, um fenômeno parecido.

Atravessando a Ponte mostra que tanto o lado de lá quanto o de cá possuem muitas características em comum. Passado e presente, oriente e ocidente, o filme mostra como a cultura se nutre desses eixos, seja para reforçar suas divisas, seja para enfraquece-las. E, mais importante que essas linhas divisórias, é o talento, a qualidade da expressão. E isso, como o filme deixa claro, não conhece fronteiras.

Tuesday, April 28, 2009

No nosso Quintal

Quem entrou às 18h no Quintal-PE teve medo que o festival “miasse”. Era muito espaço para pouco público. A Bomsucesso foi trazendo o povo do calor e das bebidas mais baratas do lado de fora para o frio do pavilhão do Centro de Convenções (pensem num ar-condicionado rochedo!). Logo depois, quando a Eddie subiu ao palco, a casa já estava lotada.

Eu tinha um palpite que o Quintal-PE teria público maior do que o Abril pro Rock deste ano, fato confirmado pela cobertura do Diário de Pernambuco. Mais do que um palpite, eu tava torcendo para que isso acontecesse, para demonstrar a viabilidade comercial desses medalhões locais.

Segundo Michelle Assumpção, do Diário de Pernambuco, o sucesso do Quintal-PE derruba a tese de que o recifense não paga para ver shows dessas bandas que tocam “de graça” no réveillon, carnaval, e noutros eventos ao longo do ano. Não sei se é uma prova definitiva, porque o Quintal-PE é um caso especial, muitas bandas de grande apelo tocando numa mesma noite.

Já fui a vários shows pagos de muitos desses artistas, todos sempre com grande público. Mas qual é a medida do sucesso, ou pelo menos da viabilidade, de um show? Em recente entrevista à revista Continente, Felipe S da Mombojó afirmou que cada um dos membros da banda lucrou R$ 100 reais com o show feito com China, em agosto do ano passado, no armazém 14. Eu vi uma multidão enorme na frente do local, na ocasião: será que boa parte dela não entrou, ou mesmo ela não foi suficiente para dar um retorno maior ao grupo?

Durante o show do Quintal-PE, a Nação Zumbi se queixou da imprensa local que, segundo eles, não prestigia a cena pernambucana, admirada em todo o país. Não ficou claro a quais veículos exatamente o ataque é direcionado, e qual seria a maneira adequada de tratar a pernambucanidade com a atenção merecida.

Eles falaram de músicas deles que tocam em rádios de São Paulo, e não tocam aqui. Mas como bem lembrou Pierre Lucena, do blog Acerto de Contas, não existem rádios pop-rock locais, e a programação das rádios grandes que tocam esse tipo de música (Jovem Pan, Oi FM, Nova Brasil e Transamérica) não é definida localmente. Uma grande luta vem sendo travada para viabilizar a rádio Frei Caneca, que abriria esse espaço para o som do estado, mas a demora por conta da burocracia é tanta que, segundo Roger, a rádio deveria se chamar Frei Damião.

Pernambuco tem uma cena cultural muito forte, em termos de quantidade e qualidade de artistas, mas não em termos de viabilidade financeira dessa arte. Após atingir um certo sucesso, a maior parte deles migra para São Paulo ou Rio de Janeiro, em busca de mais e melhores oportunidades de shows. O que é preciso ser feito para que a cena pernambucana se fortaleça, em termos comerciais, para que essa migração não seja mais necessária? E qual o papel da imprensa nesse processo? Não sei se há respostas simples para essas perguntas, mas o sucesso do Quintal-PE joga boas luzes no assunto.